12/15/2006

Elogios a Um Herói Ainda Desconhecido: G. K. Chesterton

Em uma tarde qualquer de 1997, andando pelos corredores vazios, pouco frequentados e marginalizados do setor de Teologia da Biblioteca da PUC-BH, encontro um pequeno livro, envelhecido e empoeirado que, após aberto, tornaria mais rica e alegre minha vida: Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Lendo aquelas páginas tive a impressão de ter acordado diante de mim um gigante adormecido. Cada linha e parágrafo eram tão carregados de sabedoria, verdade e humor que pareceu-me uma grande injustiça não ter sido apresentado anteriormente a este sábio e bravo servo de Deus. Passaram-se quase dez anos e Chesterton continua a me encantar. Mas entristece-me saber que este brilhante autor permanece desconhecido para milhões de cristãos tupiniquins, que trocam o precioso pelo vil em nossas livrarias de... auto-ajuda.
Em seu estilo espirituoso e paradoxal, profundamente irônico, ricamente metafórico e comumente polêmico, Chesterton sempre nos encanta, e de novo o faz, não poucas vezes me fazendo parecer um louco ao rir sozinho na presença de suas obras. Quantas foram as ocasiões em que o encanto repentino me saltaram à mente e ao coração ao ler suas tiradas clássicas. Posso confessar que, dentre os autores cristãos, Chesterton é um sujeito que correrei a encontrar na glória (sim, creio piamente em sua salvação)!! Chesterton nos faz rir e chorar simultaneamente em seus escritos, com seu zelo e amor intensos pela verdade cristã, sempre cercados de um humor irônico típico daqueles que, após experimentarem do fruto do conhecimento do bem e do mal, enojaram-se de seu sabor. Sua capacidade de circular por meios tão diversos como a literatura de romance, a filosofia, a sociologia, o jornalismo, a poesia, a teologia e a biografia histórica reflete um pouco de seu amplo conhecimento e sabedoria. Sua própria fisionomia expressa a largueza de seu espírito (Confira aqui).
Chesterton influenciou toda uma geração de cristãos espirituosos e profundamente imaginativos, fomentando um avivamento intelectual na Oxford do início do século XX - pós Henry Newman. Neste clube de “discípulos” estão figuras não pouco expressivas como C. S. Lewis, J. R. Tolkien e Charles Williams. De outros cantos que beberam de suas águas estão Malcon Mudgerige, Jorge Luiz Borges, Gabriel Garcia Marques, Doroth Sayers, Agatha Christie e Franz Kafka.
Contos policiais, tratados de apologética, biografias de santos e mestres literários, propostas de reforma social e econômica, poemas diversos, críticas culturais, ensaios literários, são alguns dos terrenos frequentados com excelência por Chesterton, com uma obra de mais de 80 livros publicados, todos reeditados recentemente em uma coleção denominada Collected Works of G. K. Chesterton, da Ignatuis Press (veja aqui - inclua chesterton).
De um ateu empedernido a um defensor fervoroso da verdade de Deus em Cristo, Chesterton desafiou os mais fortes oponentes intelectuais de sua geração e de anteriores, como Marx, Nietzsche, Tolstoy, H. G. Wells e seu companheiro de polêmicas George Bernard Shaw.
Sua série de artigos denominados Heretics e suas obras Ortodoxia e Everlasting Man (C. S. Lewis considerava esta obra como fundamental em sua conversão e concepção cristã) estão entre as mais ricas defesas do cristianismo, direcionadas com vigor a uma Inglaterra contaminada pela frieza do Deísmo e o Ateísmo Racionalista. Sua série de contos policiais denominadas Aventuras do Padre Brown são histórias deliciosas de ler, estimulando o intelecto e sobretudo a imaginação, fornecendo um banquete de situações enigmáticas, relacionadas indiretamente com a eficácia da sabedoria cristã contra o racionalismo frio dos detetives britânicos.
Chesterton também encabeçou, junto de Hilaire Belloc, o chamado movimento distribucionista inglês, que propunha uma política econômica contrária ao liberalismo e o livre mercado. Chesterton também conseguiu, como poucos, ligar de forma genial a espiritualidade da paz com a complexidade da razão nas obras clássicas sobre São Francisco e Tomás de Aquino (esta última considerada por Jaques Maritain como a melhor biografia disponível do filósofo católico).
Confesso que, em meio às muitas opiniões de Chesterton, tenho algumas vezes tristemente de lhe soltar à mão e caminhar por outro lado, principalmente em sua defesa do Catolicismo como a expressão fiel da Igreja de Cristo. Porém, mesmo com sua controversa migração e relação com o Romanismo - que alguns supõe central em sua obra - Chesterton compõe aquela constelação de autores cristãos que transcendem nossas distintas tradições pelo inegável esplendor de seu brilho como defensor de valores comuns da fé cristã: a realidade da fé, o senso comum, o homem e a vida simples, a família, os valores morais e a razão. E isto frente a uma Europa crescentemente secularizada e pagã, ansiosa e superficialmente relativista.
Fica neste momento a confissão de um kuyperiano neocalvinista que, do outro lado do canal, percebeu um tesouro por demais precioso para se deixar perder. Quantos de nós, cristãos evengélicos, não teríamos um coração mais largo, um sorriso mais aberto e constante, uma imaginação mais livre e uma mente mais aguda se nos encontrássemos com a riqueza literária de Chesterton para além de nossos guetos de literatura evangélica!? Que Deus nos ajude a cultivar aquilo que nos tem dado de mais belo!!

Algumas tiradas Chestertonianas:

"Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, a qual é um nome elegante para ignorância."
"O que torna o mundo amargo não é o excesso de criticismo, mas a ausência de auto-crítica."
"É um homem saudável aquele que pode ter tragédia em seu coração e comédia em sua cabeça."
"Progresso deveria significar que estamos sempre mudando o mundo para alcançar uma visão, mas em lugar disto temos sempre mudado a visão. "
"Most modern freedom is at root fear. It is not so much that we are too bold to endure rules; it is rather that we are too timid to endure responsibilities"
"Men do not grow tired of evil but of good. They stop worshipping God and start worshipping idols, their own bad imitations of God, and they become as wooden as the thing they worship. They start worshipping nature and become unnatural. They start worshipping sex and become perverted. Men start lusting after men and become unmanly."
Para quem quiser explorar Chesterton:
- Comece explorando pela Sociedade Americana Chesterton: www.chesterton.org
- Depois, tire uns trocados do bolso e compre (ou pegue emprestado) algum livro do Chesterton.
- Obras em Português: Ortodoxia (LTR), O Homem que era Quinta Feira (Germinal), Aventuras do Padre Brown (Graal), Doze Tipos (Top Books), Inocência do Padre Brown (Setimo Selo), Espiritualidade da Paz e Complexidade da Razão (Eidiouro), e tem uma obra introdutória esgotada do Gustavo Corção, Três Alqueires e uma Vaca.

12/09/2006

Reflexões Kuyperianas em Terras Tupiniquins: Falhou a Doutrina, Falhamos na Vida
Ainda lendo a obra Calvinismo, outro desafio me saltou aos olhos. Kuyper, em verdade, tem uma didática tão impressionante que temas complexos ou antes desconexos em minha própria mente se tornam claros e descomplicados. Sempre cri que deveria haver uma espécie de tríade na relação do homem como ser religioso e redimido. As emoções ou afetos corretos, a ação ou práxis correta e o pensamento ou discurso corretos. Mas nunca havia considerado como esta tríade, quando ignorada em sua origem na compreensão correta dos órgãos sobre os quais a religião atua, geraria uma deficiência na esfera de sua manifestação e no grupo de pessoas onde a religião deveria prosperar e florescer, conduzindo a uma religião parcial.
Quando relegamos a ação de Deus e da fé cristã apenas aos órgãos da vontade e do sentimento, ou afeição, e negamos a participação fundamental do intelecto, Kuyper aponta que acontecerão duas coisas: 1º) a esfera da vida na qual a religião se expressa será limitada, ou seja, a religião e sua ação regeneradora passam a ser excluídas da ciência e de sua autoridade na condução das coisas públicas; a cela e o segredo do coração se tornam os limites do Reino de Cristo. Deus já não participa por sua igreja das esferas da vida externàs àquela onde estão o místico e o ativista dominical. Há uma quebra e uma ruptura fundamental da unidade da vida e a força outrora central de propulsão do todo da existencia humana presentes nos cristãos reformados esvanece; e 2º) o grupo de pessoas limitados considerados piedosos ou ativos em nossas igrejas tomam precedencia sobre toda a multiplicidade de vocações e chamados, limitando o Reino a um círculo restrito de pessoas. Assim como a arte e a política são consideradas como tendo um órgão próprio, uma esfera de influência próprias e um círculo próprio de devotos, nossa religião se torna limitada a uma esfera e um círculo de pessoas específico, o daqueles com impuslos místicos e de intensa ação piedosa.
A vida perde mais uma vez a integralidade e a criaçao do bom Deus passa a ter reduzida a presença e ação dos filhos de Deus, sendo tomada por uma estranha percepção de imperfeição e malignidade, golpeando-se a consciência de homens e mulheres que amam a Deus com chamados incomuns (mas quão comuns!!) com vocações específicas (cuidar do meio ambiente? estudar filosofia da matemática? abrir negócios? estudar insetos?).
Tem-se aqui a imagem, com o auxílio explicativo de Kuyper, de que o todo da vida é intrinsecamente conectado em uma complexa rede. E onde deixamos um aspecto doutrinário revelado por Deus nos escapar às mãos, aí mesmo se vai muito da ação de Deus por meio da Igreja, aí se empobrecem as vidas dos filhos de Deus, aí se criam elites e castas onde deveria imperar o sacerdócio universal dos crentes. Ou seja, doutrina e interpretação é coisa muito séria. Creio que por isto Tiago exortou para não muitos desejarem ser mestres, pois receberiam mais duro juízo. E em nosso Brasil, quantas vocações e esferas da vida estão sob o peso de intensas trevas porque dali foram extirpados os filhos de Deus com suas vocações preparadas para que andassem nelas!? Que Deus tenha misericórdia de nós, de nossos mestres, de nossa sociedade. Pois onde não está o profeta e a profecia, o povo se corrompe.