11/30/2006

Reflexões Kuyperianas em Terras Tupiniquins: Do Ego ao Cosmos

No processo de reler a obra clássica de Kuyper, Calvinismo, me saltaram aos olhos desafios a serem enfrentados em nossa terra brasilis a fim de bebermos um pouco das abundantes águas que o bom Deus tem reservado àqueles que o amam. Um primeiro desafio é:
1) Nossa teologia de pulpito e da pratica diária tem de se desvencilhar de seu caráter fortemente antropológico e subjetivista, sobretudo no que se refere à soteriologia, e alçar vôos na direção de uma cosmologia e uma objetividade saudavel e radicalmente bíblicas.
Quantos de nós não percebemos dia a dia que a mensagem de nossos púlpitos, o conteúdo de nossas canções e de nossos livros se limitam e insistem na exortação a uma vida pessoal piedosa, ao arrependimento, e a um relacionamento intimista com Deus. Não obstante ser bíblica, quando transformada em evangelho, corre o risco esta mensagem de se tornar herética - pois lembrando o saudoso Chesterton, heresia não é algo externo ao cristianismo, mas um aspecto do cristianismo tornado na totalidade deste. Deus não é somente o Deus da subjetividade. Se o fosse, toda a criação seria indubitavelmente o céu imaginado por muitos cristãos: uma fumaça desforme, do tipo gelo seco de festa, lançada em um vasto espaço vazio, com vários espíritos desincorporados clamando santo, santo, santo, de eternidade a eternidade... somente sem o corpo, e principalmente sem o cérebro, para suportarmos por tanto tempo tamanha abstração sem conteúdo!! Esta ênfase subjetivista e intimista é, ao meu ver, mais o resultado de uma perversão do evangelho quando comprometido a uma proposta cultural aborrecedora de qualquer manifestação de metanarrativas, sistematização e unidade de pensamento, do que interpretação honesta como propõem linhas teológicas respeitáveis como a narrativa e o pós-liberalismo - se me recordo bem, Chesterton diz que quanto menos dogmático, mais o homem se aproxima do legume, pois esta criatura certamente de dogmática nada tem.
Quando se crê não haver mais espaço para integralidade na vida, apela-se ao extravazamento no círculo intimo de irmãos e sob o pé de uma cama macia em quarto qualquer. Ali Jesus é o Leão de Judá, o Todo Poderoso Deus. Mas nos círculos da vida, onde esta se manifesta em toda sua força e complexidade de relações, Jesus se torna o Deus absconditus, ou o Deus oculto. O Leão de Judá se torna na imagem de um manso e assustado gatinho. Daí a dificuldade de se discernir cristãos em locais públicos e em posições de responsabilidade social. O grito ensurdecedor dos pulpitos se torna, nas universidades, nos negócios, nas artes e na política de nosso Brasil, um murmúrio e um silêncio estarrecedor.
Aqui se entende a necessidade de teólogos pós-modernos em evocar com toda a força o espírito emotivo e fideísta de Lutero (vide Raschke, Grenz e Brian McLaren) como representante mor da verdadeira reforma e aborrecer o espírto controlado e sistemático de Calvino. Se fôssemos espíritas, poucos Centros se chamariam Centro Irmão Calvino, mas certamente milhares seriam Centro Irmão Lutero, ou Irmão Pascal. Se Calvino "baixasse", os irmãos parariam a cessão alegando forte negatividade entre os participantes. Perdoem-me estes gigantes da fé, pois talvez saibam em sua atual morada que os amo e admiro demais... mas é que hoje estão apedrejando o querido irmão Calvino, e creio que se estivessem aqui estariam também a lutar por socorrê-lo, pois se complementam.
Precisamos urgentemente da aplicação do evangelho à uma cosmologia equilibrada e bíblica, à objetividade da vida, sem cair em uma analogia entes ou a uma naturalização da teologia. Precisamos, em nosso contexto Brasileiro, de uma teologia que reivindique para Deus os espaços criados por sua bondade, os mesmos onde são decididas as condições sociais e materiais de milhões; onde as mentes de famílias inteiras são discipuladas de quatro a oito horas dominicais na mídia de massa frente a meia hora de fraco ensino cristão; onde o intelecto é feito refém ao reino deste mundo por teorias decadentes e sem fundamento legitimiador em nossas universidades; onde o coração do povo rasteja e seus lábios expressam a vergonha de nossas canções; onde a fumaça sobe constantemente das carvoarias e nossa terra se avermelha, roubando o verde de nossas matas e bandeira; onde o bolso e a barriga de uns engorda às custas de milhões que, desnutridos, estendem suas mãos secas a pedir.
Salvação integral é o que precisamos!! O evangelho extendido dos becos de nossa antropologia para o mais extenso espaço criado pelo Soberano Deus, sua boa e abrangente Criação; nossas canções novamente refletirem nosso tempo, contexto e a maravilhosa diversidade da sabedoria de Cristo; nossa imagem do céu revestida da criatividade e multiplicidade que são parte da natureza mesma do Deus triuno; Cristo de novo envolvido no coração e complexidade das relações deste mundo, onde os jogos de poder definem o destino social e corporal do povo oprimido; a reconciliação da subjetividade com a objetividade, o sentir a presença de Deus no íntimo refletido em Deus ser sentido nas ruas; o Leão de Judá do quarto ser o Deus de Justiça na política e economia; o Deus belo e amoroso de nosso louvor ser expresso na arte criativa e livre de seu povo. Ahh!! ficar a pensar de novo nas obras de tuas mãos, e agir de acordo com elas!! Sofrimento e perseguições haverão, com certeza. Estas não há certamente para aqueles que, no conforto dos seus quartos e debruçados sobre a macia cama, lutam intimamente e de toda a alma pelos que são oprimidos integralmente nas ruas, sofrendo no corpo e na alma em espaços reais e concretos.
Que Deus nos ajude a integrar a intimidade bela de nosso ser com Ele à plenitude da vida na diversa e maravilhosa criação, e a lutar contra aqueles que sempre buscam perverter a direção das boas estruturas criadas por Ele. Que sejamos sal no mundo, cidade sobre os montes, unindo em uma harmonia celeste uma correta doxa, praxis e pathos, o correto discurso, a correta prática e os afetos corretos. Que possamos nos becos, cantos e ruelas de nosso Brasil expressar a gloriosa verdade de que em Cristo, Deus estava reconciliando consigo mesmo todas as coisas.

11/19/2006

Este Blog é dedicado à tentativa despretenciosa de oferecer uma perspectiva cristã sobre temas diversos acreditando que, em meio à complexidade criacional e crescente caos cultural, ou diversi, existe uma unidade fundamental do real e um conhecimento verdadeiro, uma non adversi, o qual é herança dos peregrinos fiéis que, no caminho do Cordeiro, seguem em direção à cidade de Deus.