12/09/2006

Reflexões Kuyperianas em Terras Tupiniquins: Falhou a Doutrina, Falhamos na Vida
Ainda lendo a obra Calvinismo, outro desafio me saltou aos olhos. Kuyper, em verdade, tem uma didática tão impressionante que temas complexos ou antes desconexos em minha própria mente se tornam claros e descomplicados. Sempre cri que deveria haver uma espécie de tríade na relação do homem como ser religioso e redimido. As emoções ou afetos corretos, a ação ou práxis correta e o pensamento ou discurso corretos. Mas nunca havia considerado como esta tríade, quando ignorada em sua origem na compreensão correta dos órgãos sobre os quais a religião atua, geraria uma deficiência na esfera de sua manifestação e no grupo de pessoas onde a religião deveria prosperar e florescer, conduzindo a uma religião parcial.
Quando relegamos a ação de Deus e da fé cristã apenas aos órgãos da vontade e do sentimento, ou afeição, e negamos a participação fundamental do intelecto, Kuyper aponta que acontecerão duas coisas: 1º) a esfera da vida na qual a religião se expressa será limitada, ou seja, a religião e sua ação regeneradora passam a ser excluídas da ciência e de sua autoridade na condução das coisas públicas; a cela e o segredo do coração se tornam os limites do Reino de Cristo. Deus já não participa por sua igreja das esferas da vida externàs àquela onde estão o místico e o ativista dominical. Há uma quebra e uma ruptura fundamental da unidade da vida e a força outrora central de propulsão do todo da existencia humana presentes nos cristãos reformados esvanece; e 2º) o grupo de pessoas limitados considerados piedosos ou ativos em nossas igrejas tomam precedencia sobre toda a multiplicidade de vocações e chamados, limitando o Reino a um círculo restrito de pessoas. Assim como a arte e a política são consideradas como tendo um órgão próprio, uma esfera de influência próprias e um círculo próprio de devotos, nossa religião se torna limitada a uma esfera e um círculo de pessoas específico, o daqueles com impuslos místicos e de intensa ação piedosa.
A vida perde mais uma vez a integralidade e a criaçao do bom Deus passa a ter reduzida a presença e ação dos filhos de Deus, sendo tomada por uma estranha percepção de imperfeição e malignidade, golpeando-se a consciência de homens e mulheres que amam a Deus com chamados incomuns (mas quão comuns!!) com vocações específicas (cuidar do meio ambiente? estudar filosofia da matemática? abrir negócios? estudar insetos?).
Tem-se aqui a imagem, com o auxílio explicativo de Kuyper, de que o todo da vida é intrinsecamente conectado em uma complexa rede. E onde deixamos um aspecto doutrinário revelado por Deus nos escapar às mãos, aí mesmo se vai muito da ação de Deus por meio da Igreja, aí se empobrecem as vidas dos filhos de Deus, aí se criam elites e castas onde deveria imperar o sacerdócio universal dos crentes. Ou seja, doutrina e interpretação é coisa muito séria. Creio que por isto Tiago exortou para não muitos desejarem ser mestres, pois receberiam mais duro juízo. E em nosso Brasil, quantas vocações e esferas da vida estão sob o peso de intensas trevas porque dali foram extirpados os filhos de Deus com suas vocações preparadas para que andassem nelas!? Que Deus tenha misericórdia de nós, de nossos mestres, de nossa sociedade. Pois onde não está o profeta e a profecia, o povo se corrompe.